quarta-feira, 25 de março de 2009

O CONSULADO


Em Belo Horizonte tem consulados e prepostos de quase todos os países do mundo. 
Tem da Itália, da Inglaterra, da China, do Líbano, da Alemanha, enfim...
E tem também os “ consulados “ de várias cidades do interior, onde o povos de todos os recantos das Minas Gerais podem se encontrar, se referenciar e encontrar alguma coisa da terrinha, seja noticia, seja um docim, um quijim, um sotaque comum.
Um “consulado” do gênero que pode muito bem exemplicar o que proponho é a Associação dos Filhos e Amigos de Teófilo Otoni, que fica em Lourdes, um dos bairros mais tradicionais de Belo Horizonte.
Trata-se de um escritório muito bem montadinho, decorado com quadros de artistas de Teófilo Otoni, tendo um computador, arquivo, secretária, uma recepção, cafezinho, um banheirinho, tudo muito simples, mas funcional e com aquela hospitalidade tão comum entre as pessoas daquele canto do estado, um povo que adora recitar uma poesia e prosear sem hora pra terminar.
Pois bem.! Já imaginaram algo assim para Alvinópolis? Um escritório de Alvinópolis no centro de Belo Horizonte, onde as pessoas pudessem ser por exemplo encaminhadas para empregos, para consultas, para estudar? Onde houvesse sempre um cadastro atualizado de todos os Alvinopolenses, onde sempre tivesse um temperim da terra, uma shampozim, um panim, um Adeus Marinha, um Bambas do Gaspar...
Seria o máximo, não seria? 
Tai mais uma coisa para o nosso bom Galo Índio pensar.
Sei que ele também sonha o dia inteiro com coisas boas pra nossa terra.
Inclusive, já tive a oportunidade de morar com ele num lugar que era um espécie de consulado de Alvinópolis: a República dos Anjos, na Pedro II, 533/Apto 11, onde o principal assunto conversado era sempre Alvinópolis. 
Ali naquele prédio antigo, onde gerações e gerações de Alvipolenses passaram, acho que Galo Índio, secretamente, já sonhava com o dia em que seria prefeito da terrinha.
Pois bem, Galo Índio. Agora, você chegou lá e tem muitos e muitos sonhos a realizar.
É uma idéia tão boa, que até o governador nos estendeu o tapete vermelho(foto).
Brincadeiras à parte, sou um sonhador, um utopista de marca maior e tudo pode não passar de mais um sonho maluco, mas é assim a vida né? 
Mesmo porque tudo que existe foi sonho antes de se tornar realidade!

sexta-feira, 13 de março de 2009

A ITALIANADA



Não é difícil saber por que gosto tanto de lasanha, de pizza e de massas em geral.

É que o sangue italiano pulsa forte.

Meu Deus do céu, como me orgulho do Martino do meu nome.

A italianada que me forneceu parte do sangue fincou pé em Alvinópolis no inicio do século passado e penso ter sido fundamental para a configuração da cidade do jeito que é.

Lembro-me muito do meu avô Dominguim, um italianinho danado de bravo mas inteligente e forte como ele só. Era uma metralhadora pra xingar, tinha pouca paciência com quem errava demais no trabalho, mas era uma doçura conosco, com um coração do tamanho da Itália. 

De vez enquando tomava uns porres e desatava a delirar, contando casos pra lá de surreais. Meu primo Nivota deve se lembrar de um dia em que contou que tinha um gato datilógrafo. Mas isso era pouco para as peripécias do seu Dominguinhos. Aliás, fui espectador de uma parte muito pequena da história daquele italianinho das pernas tortas e dos cabelos de prata, um anarquista, graças a Deus.

Do meu avô, veio tio Ronald Martino, mais conhecido como Pintacuda, um dos maiores motoristas da história de Alvinópolis. Dizem que tinha esse  porque havia um piloto famoso na Itália que tinha esse nome e meu tio aprendeu a dirigir aos 6 anos de idade, quando saiu dirigindo um carro que estava sendo consertado na oficina do meu avô. Daí que pegou gosto pelos automóveis e viveu como motorista até seus ultimos minutos de vida.

Ele teve também a minha mãe, a Dona Neusa do Cartório, dona de uma inteligência e uma finesse que nunca vi igual.

Mas a Italianada que veio pra Alvinópolis no inicio do século passado tinha outras vertentes. Haviam também os Pettinatis, cuja técnica em artefatos de cobres fez fama na região. Houve ainda  os Ianarreli, os Schettini, que se tornaram grandes comerciantes, os Catizzani, os Mancuzo, os Pascoal(como bem me esclareceu a Cora, que não é Coralina, mas também respira poesia) e outros de que não me recordo agora.

Penso que dessa influência italiana, vem também a predileção da cidade pelas cores azuis do Cruzeiro, o Palestra Itália mineiro, cujas cores foram inspiradas na Azurra, famosa camisa da seleção italiana.

Uma coisa curiosa é que eu pensava que o sobrenome Martino fosse raro, mas pesquisando na internet descobri tratar-se de um sobrenome que tem em toda a bota, tão comum por lá quanto Silva no Brasil.

Dessa Italianada inicial, veio uma italianada nova, gerações que se misturaram e se adaptaram dando sua contribuição no jeito de ser Alvinopolense e até se espalhando pelo Brasil e pelo planeta afora, uma turma também orgulhosa de ostentar o sanguinho com cheiro de vinho da bota.

É isso aí, pessoal! No próximo texto vou falar sobre os Souza, Carvalho e Abreu Lima, ancestrais que figuram entre os  pioneiros na colonização de nossa região.

sábado, 7 de março de 2009

ONDE TODAS AS SEMANAS SÃO SANTAS


Morar fora de Alvinópolis é como viver no exílio.

Sinto como se vivesse num país estranho, onde os costumes, os volumes, as amizades, os sotaques são estranhos, por mais semelhantes que pareçam.
 

Não conhecemos as famílias de cicrano, as manias de beltrano, nada sabemos.
 

Muitas vezes nos sentamos nos ônibus ao lado de um estuprador, de um pedófilo, de um extraterrestre, de um muçulmano.
 

Vivemos em casas onde muitos já viveram, dormimos em quartos em que muitos já morreram, se amaram, sei lá mais o que fizeram.


Como dói a saudade da aldeia.
 

Muitas vezes somos exilados de nós mesmos, perdemos a utilidade, queremos voar mais alto, como num vôo de Ícaro contemporâneo, tendo as asas coladas com chicletes.
 

Quem dera pudéssemos pousar novamente, suavemente em grande estilo, mas o campo de aviação encontra-se cheio de lixo, não se presta ao pouso de anjos, mas de urubus e outras aves de mau agouro.
 

Pelo menos há alívio quando temos indultos para voltar ao paraíso.


O mesmo relevo, o mesmo clima, as mesmas ruas. 
 

Algumas mudanças ocorreram, sumiram alguns campinhos de futebol, o asilo subiu pro monte, o rio antigo tá menos caudaloso, mas em compensação temos um rio de shampoo desaguando no país inteiro, os bambas do Gaspar ficaram bambos com a quase morte do Alvinopolense e o folião que abandonou a marinha, tava até pensando em voltar pro mar...mas eis que o carnaval retomou seu vigor e o que estava bambo se firmou e o que era “ Adeus” virou "até breve".

 

Ê Alvinópolis véia de guerra. 
 

A vida da gente é um filme, mas não somos nós que escrevemos os roteiros.


Não sabemos onde estaremos amanhã, mas sabemos que o cordão umbilical tá enterrado aí, feito de material mais resistente que o mais resistente dos aços.
 

E agora, ficamos todos nós exilados esperando a semana santa, pra voltar pra terra onde são santas todas as semanas.

quarta-feira, 4 de março de 2009

CASAS DE BARRO

Não estive presente no primeiro festival em que a música “Casas de Barro” se sagrou vencedora.

Só fui conhecer a música uns dois anos depois, se não me engano por intermédio de uma professora do colégio.

Tenho dúvidas se foi Maria Geralda de Dico Lavanca ou Marina de Darcy.

Não me lembro também se era aula de Português ou Educação Artística.

Sei que essa professora levou para a sala um compacto simples com a música “Casas de Barro” do compositor Flávio do Carmo, de Sete Lagoas.

Ela nos falou sobre a importância do festival e a aula naquele dia foi de interpretação de texto em cima daquela música maravilhosa.

Fiquei encantado tanto pelo conteúdo poético quanto pela qualidade musical. Uma daquelas músicas que entra no ouvido e não sai nunca mais.

Aliás, eu poderia enumerar pelo menos umas 30 músicas maravilhosas que passaram pelo Festival de Alvinópolis (não se sabe qual o mistério que faz com que algumas canções consigam fazer sucesso e outras não. Não dá pra entender como o CREU faz sucesso, enquanto Casas de Barro e outras permanecem no anonimato).

Pois numa dessas idas e vindas nesse mundo piquininim, há pouco tempo tive a oportunidade de me encontrar com Flávio do Carmo. Ele hoje é presidente do PPS em sua amada Sete Lagoas, que inspirou tão lindas canções.

Pedi a ele que me enviasse a música Casas de Barro, para que pudesse disponibilizar para as novas gerações da cidade, para que pudessem conhecer aquela que na minha opinião foi uma das mais bonitas (senão a mais bonita) de todos as edições do nosso festival.

Flavio foi gentil e me enviou até uma nova gravação da música, feita com arranjo eletrônico em estúdio digital, mas com outro cantor. Fiquei um tanto decepcionado, pois queria a gravação original. Sabia que os recursos de gravação da época não eram tão bons, mas nada como o original.

Pedi a ele, que prontamente me enviou a versão original, só que gravada à partir de um compacto, todo cheio de ruídos dos famosos arranhões do tempo. Mas alguns dias depois, eis que chegou em meu email uma nova versão da música. Flávio foi num estúdio e digitalizou a fita original, nos agraciando com uma gravação perfeita (logicamente devemos considerar que a música foi gravada em 1975 com os recursos da época)

Sendo assim é com muito orgulho que disponibilizo para audição de vocês essa canção que significa restabelecer parte de nossas memórias afetivas, mesmo que a canção tenha tido como referência outra cidade.

Com ela, nosso festival tem princípio, meio...e...bem...quanto ao fim, se Deus quiser não haverá.

Se o destino quiser e meu dinheiro der, um dia ainda haverei de gravar essa música.

Deliciem-se com Casas de Barro...depois me contem o que acharam.

domingo, 1 de março de 2009

NÃO SE FAZ MAIS QUARESMAS COMO ANTIGAMENTE


Não gosto muito do discurso do “antigamente era melhor”, mas não  se faz mais quaresmas como antigamente.

 

Ainda mais que tinha alguns parentes que eram mestres na arte de contar casos de assombração.

 

Me lembro de estarmos sentados na cozinha da Dona Zita de tio Caitanim e ela contava  casos do além com tamanha dramaticidade que a gente arrepiava dos pés à cabeça.

 

Havia um grande repertório de casos, como do homem de chifres, da mulher do algodão, do monstro de bambu do campinho da rua de cima, do caixão da Cia, dos fantasmas da Prefeitura velha, além de Paulo Moreira em seu cavalo de fogo, dos sacis pererés, lobisomens e outras feras do imaginário popular.

 

Mas a história que mais me arrepiava era da procissão dos mortos, em que várias pessoas que foram enterradas no cemitério saiam em noite de lua cheia, cada uma carregando um ossinho e cantando músicas do além.

 

Todos os dias em minhas orações na hora de dormir, pedia a Deus pra não acordar de madrugada, pra não ouvir a música macabra dos defuntos.

 

O fato de morar perto do cemitério aumentava o meu pavor. 

 

Até quando  rapaz, ao retornar dos bailes e horas dançantes, passava no largo do chiquito assoviando e tomando o cuidado de não olhar pra cima, com medo de ver alguma alma do além.

 

Tinha medo de olhar principalmente para a cruz que fica próxima a igrejinha construída pelos escravos.

 

Aquela cruz estava sempre enfeitada com algum tipo de tecido, que com o tempo ia se desfazendo em trapos e quando o vento batia, balançava os panos velhos e dava uma aparência fantasmagórica.

 

Nos tempos atuais, importaram um tal de Ralouin (haloween) que se faz em um dia em outubro, mas quem é o tal de Ralouin pra disputar com as quaresmas que duravam quarenta dias. 

 

Pena que não se faz mais assombrações como antigamente.

 

Assombração de hoje é a crise...