domingo, 19 de abril de 2009

GUSTAVO X OBREGON


Não me lembro exatamente o ano, mas lembro-me de ter sido um acontecimento ímpar em Alvinópolis.

Me perdoem o lapso de memória, mas me fogem alguns detalhes.

Sei que corria na cidade o boato de que o grande criminalista Obregon Gonçalves iria a Alvinópolis para um júri, para defender uma pessoa.

Eu vivia muito o ambiente forense, afinal, minha mãe trabalhava no fórum.                 

Adorava filmes de júris, gostava de ver os grandes oradores em ação e estava doido para ver o grande Obregon em ação.

Diziam que ele tinha um problema de nascença, que não tinha as mãos, mas que Deus havia lhe compensando essa deficiência  dotando-lhe de inteligência acima da média.

Pois bem! O júri foi marcado e faltava saber quem seria o advogado que iria enfrentar aquela fera.

Quando foi anunciado o advogado que iria enfrentá-lo no tribunal, confesso que fiquei com pena do sujeito: seria o Gustavo Correa Neto, até pouco tempo, fotógrafo da cidade, um jovem reconhecidamente inteligente, mas recém-formado e sem experiência de júri.

Aliás, importante dizer que o Gustavo era para mim uma referência na rua de cima, tinha seu laboratório de fotos perto da casa de sua mãe e teve uma coisa boba que me marcou naquela época. Eu estava estudando caligrafia na época, aprendendo a escrever em letra cursiva. Fiquei muito surpreendido quando certa vez fui ao laboratório do Gustavo e vi várias coisas que ele havia escrito, só que em letra de forma, tudo com muito capricho. A partir daí, também fiquei rebelde e resolvi  escrever em letra de forma. Na escola, escrevia em letra cursiva pra não levar xingo dos professores, mas em minhas coisas pessoais, passei a escrever em caixa alta e assim faço até hoje.

Mas voltando ao grande júri, chegou o grande dia.

O fórum estava em polvorosa, todo mundo muito bem vestido, um clima pesado no ar e para muitos, a certeza de que o Obregon iria trucidar o Gustavo.

Eu confesso que também pensava assim, não que o Gustavo não fosse inteligente, mas era Davi contra Golias e era proibido usar bodoque no tribunal.

Quando chegou a hora do tribunal, tudo muito formal, as pessoas em suas indumentárias e pude enfim ver a figura do Obregon chegando. Realmente, ele tinha aquele problema que por incrível que pareça, realçava a sua personalidade.

Todos a postos, o escrivão, o juiz com sua cara de Deus, todos muito sérios e solenes.

De repente o juiz bateu seu martelo e abriu o tribunal.

Daí, pude enfim ver o grande jurista falando. Obregon  se expressava com tal teatralidade que hipnotizava a todos. Hora usava de ironia, noutra de sentimentalismo e ia envolvendo os jurados, que em todo momento assentiam com a cabeça.

Eu também estava paralisado.

Quando terminou, o povo só não aplaudiu, porque não podia quebrar o protocolo.

Mas eis que faltava o Davi, ou seja, o Gustavo falar.

Ele começou meio nervoso, algumas palavras tropeçavam, mas eis que começou a se entusiasmar, foi tomado pela verdade, foi ganhando confiança,  deixou fluir a inteligência que tinha de sobra e conseguiu o que todos duvidavam: foi mais convincente que o magnífico Obregon Gonçalves.

Naquele momento deu um baita orgulho de ser Alvinopolense.

Obregon tentou se justificar dizendo que aquela era uma causa impossível. Mas como, se aquele era o homem das causas impossíveis?

Fiquei doido pra dar um abraço no Gustavo, mas deixei pra lá.

Ele era um gigante e eu apenas um meninote.

Depois disso, o destino ainda me levou a ter o meu primeiro emprego, aos 14 anos, no escritório de advocacia que pertencia a ele, Repolês, Tatim e Lalado.

Gustavo ainda foi pioneiro na rua de cima, sendoi a primeira pessoa em Alvinópolis a ter uma TV a cores. Lembro-me da turma subindo com um rolo de fios pelo pasto a fora, pra instalar a antena e pegar a revolucionária TV colorida.


terça-feira, 14 de abril de 2009

Nick's bar, três gerações de sucesso...


        Há alguns anos atrás, havia um bar na baixada chamado Santa Rita. O bar pertencia a um simpático Sr. conhecido como Seu Nico e era referência na praça, dada a simpatia do seu dono e o amor com que conduzia seu estabelecimento. 

                Só que a história daquele bar tão aconchegante tomou outro rumo à medida que os filhos do Sr Nico foram crescendo e tomando gosto pela coisa. Eles sempre foram muito trabalhadores e foram promovendo mudanças pontuais, a começar pelo nome do bar que passou a se chamar Nick's Bar, em homenagem ao pai fundador.

                Os fatores responsáveis pelo sucesso do Nick's dos primeiros tempos foram a decoração de muito bom gosto, o atendimento diferenciado e principalmente a música. Nô era um grande apreciador do que de melhor se produzia musicalmente no país naquele momento. No Nick's era proibido ouvir música ruim. Por ali a gente ouvia Egberto Gismonti, Fagner, Caetano, Zé Ramalho, Ednardo, Beto Guedes, Lô Borges, Belchior, Hermeto Pascoal, Banda de Pau e Corda, Quinteto Violado, Sá e Guarabyra, 14 Bis, Queen, Pink Floyd, Led Zepellin, só música de grande qualidade. Devo muito da minha formação musical ao Nô de Sô Nico.

                Naquela época, viajamos por várias cidades do estado com o Verde Terra e não encontramos nada similar ao Nick's. Tínhamos até orgulho de encher o peito e dizer: -na nossa região não tem um barzinho que chegue aos pés do Nick's. Até em Belo Horizonte era difícil encontrar um barzinho tão cultural e com tão excelente atendimento. A influência do Nick's era uma coisa tão séria que muitas vezes ficou inviável fazer eventos em outros locais, pois a "gravidade" daquele lugar parece que segurava as pessoas. A atração do bar e da praça eram tão fortes e as pessoas ficaram tão acostumadas a frequentar suas cercanias, que se numa noite a população ficar totalmente sem luz, mesmo no escuro vai caminhar automaticamente para a porta do Nick's.

                Nos aureos tempos, passamos toda uma juventude sendo influenciados pela cultura que passava pelo bar. Lembro-me de ter participado de campeonatos de xadrez, buraco, de muitas noites de viola com o Verde Terra, de ter namorado muito, de ter visto shows, de ter tomado muitos bravos, bebida vulcânica criada pelo Celsim de Campeão, enfim, o Nick's foi cenário de grande parte de minha vida e da minha juventude.  

                Impossível esquecer do Nô, um dos baixinhos mais enfezados que já vi, capaz de enfrentar um urso no tapa se estivesse perturbando os clientes no bar, da Ana, dona de um bom gosto sem par, do seu marido Marquinho, que já falava de desenvolvimento sustentado antes de qualquer um falar no assunto, do seu Nico e Dona Mirtes, sempre amáveis, da Taninha, da Vaninha e dos garçons, também educados como seus patrões.

                Hoje o Nick's é também restaurante e pizzaria, mas perdeu parte do seu glamour. Não que não esteja arrumadinho e bem cuidado. As novas gerações é que não querer mais saber de boas músicas, preferindo os sertanejos, funks e axés da vida. O Nick's teve de ceder, até por uma questão de sobrevivência.

                A família chegou até a arrendar o bar, imagino que um tanto decepcionada com a dureza dos novos tempos, com a concorrência que aumentou consideravelmente e mesmo por cansaço, por tantos anos de trabalho duro e muitas vezes não reconhecido .

                À  terceira geração caberá a tarefa de pensar o Nick's do futuro, de quem sabe resgatar a vanguarda, a aura cultural,  sempre com a supervisão do pequeno grande Nô e da holística Ana, além do Sô Nico, que olha por todos lá de cima. 

         

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O CAMPIM DA RUA DE CIMA



Mais uma vez a minha filha sem querer, me levou para uma viagem no tempo.
 

Ao chegar em casa tristinha, reclamando que algumas crianças mais velhas haviam ameaçado a ela e a uma coleguinha na escola, me fez lembrar meus tempos de craque no antigo campim da rua de cima, onde se localiza hoje a garagem da Lopes e Filhos.

 

A atividade no campinho começava mais ou menos por volta das 7 da manhã, quando já havia uma fogueirinha acesa e a turma já começava a chegar para a primeira grande peleja do dia. Nessa hora é que os mais novos conseguiam jogar, pois mais ou menos as 9 os mais velhos chegavam e botavam os pirralhos para correr.

O único que desafiava os gigantões era Reinaldo, irmão de Ricardão e Carlinhos Gipão, pois embora mais novo, era avantajado e não tinha medo de ninguém. 

Quando ameaçavam tirá-lo ele gritava:

- Ah é? Se eu não jogar, levo as traves de bambu, pois fui eu quem colocou.

E ninguém ousava desafiá-lo.

A turminha nova só tinha chance de novo a partir das 13 horas, com sol de rachar mamona, pois as 15 o campinho voltava a virar terra de gigantes.

 

Pelo campinho passaram craques memoráveis, como o Travolta da rua de cima Silvinho de Castivilla, o grande Chitão, que era um becão e seu irmão Bené, Paulinho de Ambrosina com seu canhão, Tom João que era tipo uma nuvem passageira, suando, molhando todo mundo  e fazendo muitos gols, Manoel de Jaime, também conhecido como Pastel Venenoso, Carlinhos Gipão, com seu potente chute de bicuda, Fernando Taioba, Zinho, Geraldim Pistolinha, Marcelo Xuxa, Ricardão, Amarildo, Ronaldim, Nicolauzim de Vivina, Luiz de Pintacuda ,Gustavo, Piorra, Zé Meié, Totone, entre outros...isso no meu tempo.

 

Lembro-me de casos engraçados.

Teve uma vez que o time da Rua Nova veio jogar como convidado. Primeiro tempo o time da rua de cima ganhava de um a zero. No intervalo, Luiz de Pintacuda distribuiu Kisuco para o seu time. O time adversário ficou revoltado e virou o jogo no segundo tempo.

Numa outra vez, o time da rua nova voltou para nova partida.

Havia um troféu em disputa.

Desta vez, perderam de 2x1, mas fugiram e levaram o troféu, que nunca mais foi visto.

 

Engraçado também era o fim das peladas.

Lá pelas 5 da tarde, Dona Ambrosina gritava – Tão João, tá na hora. Vem bora pra ir pra aula, minino!

 

E Tão João respondia:

- Já vô mãe!

 

Só que o jávô mãe durava até lá pelas 6 da tarde, quando ninguém mais via a bola, pois já não havia luz. Nesse instante, alguém chutava a bola no esgoto que ficava no fundo das casas. Só se ouvia o baque da bola batendo no rego cheio de rejeitos humanos e um por um ia gritando:

- Parei!

 

E a bola sobrava para o seu dono buscar, geralmente Manoel de Jaime que tinha melhor situação financeira e sempre tinha uma bola de capota nova.

 

Uma coisa engraçada aconteceu também comigo.

Certa vez, a bola caiu no mato, perto da casa de Loló e fui buscar. Quando fui pisar num monte bambus pra passar e pegar a bola, um desses bambus pontudo foi projetado e perfurou a minha perna. Peguei a bola e sai para o campinho com aquele bambu ainda agarrado na panturrilha. Quando cheguei com a bola, mostrei pra turma e falei que iria parar, pois estava doendo e tinha um estrepe grande.

Só que como ia desfalcar o time, alguém ironizou, dizendo:

- Ann, muiezinha!

Eu falei:

- Muiezinha não, tá.

Trinquei os dentes, peguei o pedaço de bambu que estava ainda agarrado e puxei com força.

Doeu pra caramba, mas agüentei firme.

Voltei a jogar, pois ser chamado de muiezinha era uma coisa inaceitável.

Como o ferimento foi profundo, o sangue jorrou com força e fiquei todo sujo, mas preferível a dor que ser chamado de muiezinha. Ainda carrego a cicatriz desse dia até hoje, um troféu para o resto da vida.

 

Legal também era tomar água na fonte de Loló em folhas de taioba e as coceiras que tínhamos por causa dos tombos em cima dos pés de cansanção.

Mas um dia, o campim teve de ceder lugar ao progresso, mais uma vez o lúdico cedendo lugar ao prático.

O campim não existe mais, a não ser em nossas privilegiadas memórias. Com o seu fim, encerrei também a minha gloriosa carreira no futebol.

Depois, ainda cheguei a tentar a sorte no Pinga Rato, onde Barbado reinava absoluto, mas já não tinha futebol suficiente. O campim da rua de cima ficou como mais uma página na vida de muitos de nós, sortudos por ter uma infância tão boa.

Ô saudade, meu Deus!

domingo, 5 de abril de 2009

JOÃO VITOR XAVIER É O FUTURO


Há alguns dias atrás fui a Alvinópolis para um encontro com o prefeito João Galo Índio e fiquei sabendo que ele estava acompanhando João Vitor Xavier numa visita à rádio Alvimonte.

Pensei comigo: Uai, o que será que o João Vitor está fazendo em Alvinópolis?

Quando cheguei à prefeitura, o famoso radialista já havia ido embora, junto com seu fiel escudeiro Carlos Cervidanes e perdi a oportunidade de conhecê-los pessoalmente naquela oportunidade.

Galo Índio me contou que conhecia o João Vitor da época em que trabalhava na saúde em Belo Horizonte, que ele era de Caeté e que freqüentou muito Alvinópolis quando mais novo, pois era muito amigo do pessoal de Neder. A razão desta sua visita de cortesia, é que estava percorrendo algumas cidades, já preparando terreno para uma possível candidatura a deputado no próximo pleito.

No outro dia, retornei a Belo Horizonte e quando entrei na internet, Juninho do Alvinews apareceu na telinha. Costumamos conversar sempre pelo gtalk. Juninho me perguntou se eu teria alguém a indicar para uma nova entrevista para o site, já que estava na hora de entrarem novas matérias, novos artigos.  Perguntei o que achava de entrevistar o João Vitor Xavier, pra que ele contasse essa sua história de ter freqüentado a cidade, além do mais, tinha também uma bonita história de vida pra contar.

Juninho gostou da idéia e começamos a nos mobilizar.   O próprio prefeito Galo Índio se encarregou de agendar com o João Vitor e assim ficou marcada a entrevista para uma segunda feira, antes do  programa dele na rádio Itatiaia.

Como não poderia deixar de ser, partimos para o “ Novo pai dos burros”, o”São Google” para  pesquisarmos um pouco mais sobre a história do entrevistado. Ficamos surpresos quando ficamos sabendo que ele tinha apenas 26 anos de idade e já se encontrava num estágio em que muita gente com uma carreira inteira nem consegue chegar perto. Na Itatiaia ele se desdobra como repórter, cronista esportivo, apresentador e co-criador do programa Bastidores, uma das maiores audiências da grade da emissora.  

No dia marcado chegamos cedo e ficamos na portaria enquanto observávamos um desfile de estrelas da Itatigalo (nunca vi tanto atleticano por metro quadrado). Vimos passando o Lélio Gustavo, o Júnior Brasil (que nos disseram ser um ex cruzeirense), o Guilherme Gonzer e tive até oportunidade de me encontrar com Samuel Venâncio, um repórter da novíssima geração que tive a oportunidade de conhecer durante aulas práticas que fez na filmavídeo, quando ainda fazia jornalismo na Faculdade Universo. Enquanto aguardávamos, também tivemos a companhia do Nivaldo, "recepcionista" da rádio, um sujeito muito gente boa que nos contou várias curiosidades sobre a Rádio. Era um cruzeirense no meio de um mar de Atleticanos. (Cruzeirenses na Itatigalo dá pra se contar nos dedos).  

João Vitor chegou quase em cima da hora do programa e nos chamou para acompanhar a gravação do programa no estúdio. Teríamos de gravar nas brechas de tempo, pois o homem é ocupado demais e teria outro compromisso logo depois do programa (ser vereador de capital é mais pesado que ser prefeito em cidade do interior).

Na hora da entrevista a conversa rolou solta. João Vitor nos provou que realmente fez estágio em Alvinópolis em sua juventude, pois nos recebeu com grande hospitalidade, simplicidade e conhecimento de causa. Sua equipe de assessores também foi muito gentil e atenciosa. A impressão que ficou é a de que estávamos diante de uma personalidade marcante, um brilhante comunicador e um político em inicio de carreira com um futuro brilhante pela frente. Durante a entrevista, Juninho aproveitava para tirar algumas fotos para ilustrar o site. A última fotografia ele queria tirar abraçado ao João Vitor, com o símbolo da rádio ao fundo. Pediu a um dos assessores pra tirar. Na hora eu falei: - Peraí...também quero sair nessa foto. Sabe-se lá se não será ao lado de um futuro governador do estado?

No site www.alvinews.com.br, vocês poderão tanto ouvir a entrevista em audio, como ler a entrevista escrita. O interessante é que tem diferenças, pois na entrevista escrita entram coisas que foram ditas em off e não estão na gravação em áudio. Já na gravação em audio, tem também alguns detalhes que não estão na entrevista escrita. 


quarta-feira, 25 de março de 2009

O CONSULADO


Em Belo Horizonte tem consulados e prepostos de quase todos os países do mundo. 
Tem da Itália, da Inglaterra, da China, do Líbano, da Alemanha, enfim...
E tem também os “ consulados “ de várias cidades do interior, onde o povos de todos os recantos das Minas Gerais podem se encontrar, se referenciar e encontrar alguma coisa da terrinha, seja noticia, seja um docim, um quijim, um sotaque comum.
Um “consulado” do gênero que pode muito bem exemplicar o que proponho é a Associação dos Filhos e Amigos de Teófilo Otoni, que fica em Lourdes, um dos bairros mais tradicionais de Belo Horizonte.
Trata-se de um escritório muito bem montadinho, decorado com quadros de artistas de Teófilo Otoni, tendo um computador, arquivo, secretária, uma recepção, cafezinho, um banheirinho, tudo muito simples, mas funcional e com aquela hospitalidade tão comum entre as pessoas daquele canto do estado, um povo que adora recitar uma poesia e prosear sem hora pra terminar.
Pois bem.! Já imaginaram algo assim para Alvinópolis? Um escritório de Alvinópolis no centro de Belo Horizonte, onde as pessoas pudessem ser por exemplo encaminhadas para empregos, para consultas, para estudar? Onde houvesse sempre um cadastro atualizado de todos os Alvinopolenses, onde sempre tivesse um temperim da terra, uma shampozim, um panim, um Adeus Marinha, um Bambas do Gaspar...
Seria o máximo, não seria? 
Tai mais uma coisa para o nosso bom Galo Índio pensar.
Sei que ele também sonha o dia inteiro com coisas boas pra nossa terra.
Inclusive, já tive a oportunidade de morar com ele num lugar que era um espécie de consulado de Alvinópolis: a República dos Anjos, na Pedro II, 533/Apto 11, onde o principal assunto conversado era sempre Alvinópolis. 
Ali naquele prédio antigo, onde gerações e gerações de Alvipolenses passaram, acho que Galo Índio, secretamente, já sonhava com o dia em que seria prefeito da terrinha.
Pois bem, Galo Índio. Agora, você chegou lá e tem muitos e muitos sonhos a realizar.
É uma idéia tão boa, que até o governador nos estendeu o tapete vermelho(foto).
Brincadeiras à parte, sou um sonhador, um utopista de marca maior e tudo pode não passar de mais um sonho maluco, mas é assim a vida né? 
Mesmo porque tudo que existe foi sonho antes de se tornar realidade!

sexta-feira, 13 de março de 2009

A ITALIANADA



Não é difícil saber por que gosto tanto de lasanha, de pizza e de massas em geral.

É que o sangue italiano pulsa forte.

Meu Deus do céu, como me orgulho do Martino do meu nome.

A italianada que me forneceu parte do sangue fincou pé em Alvinópolis no inicio do século passado e penso ter sido fundamental para a configuração da cidade do jeito que é.

Lembro-me muito do meu avô Dominguim, um italianinho danado de bravo mas inteligente e forte como ele só. Era uma metralhadora pra xingar, tinha pouca paciência com quem errava demais no trabalho, mas era uma doçura conosco, com um coração do tamanho da Itália. 

De vez enquando tomava uns porres e desatava a delirar, contando casos pra lá de surreais. Meu primo Nivota deve se lembrar de um dia em que contou que tinha um gato datilógrafo. Mas isso era pouco para as peripécias do seu Dominguinhos. Aliás, fui espectador de uma parte muito pequena da história daquele italianinho das pernas tortas e dos cabelos de prata, um anarquista, graças a Deus.

Do meu avô, veio tio Ronald Martino, mais conhecido como Pintacuda, um dos maiores motoristas da história de Alvinópolis. Dizem que tinha esse  porque havia um piloto famoso na Itália que tinha esse nome e meu tio aprendeu a dirigir aos 6 anos de idade, quando saiu dirigindo um carro que estava sendo consertado na oficina do meu avô. Daí que pegou gosto pelos automóveis e viveu como motorista até seus ultimos minutos de vida.

Ele teve também a minha mãe, a Dona Neusa do Cartório, dona de uma inteligência e uma finesse que nunca vi igual.

Mas a Italianada que veio pra Alvinópolis no inicio do século passado tinha outras vertentes. Haviam também os Pettinatis, cuja técnica em artefatos de cobres fez fama na região. Houve ainda  os Ianarreli, os Schettini, que se tornaram grandes comerciantes, os Catizzani, os Mancuzo, os Pascoal(como bem me esclareceu a Cora, que não é Coralina, mas também respira poesia) e outros de que não me recordo agora.

Penso que dessa influência italiana, vem também a predileção da cidade pelas cores azuis do Cruzeiro, o Palestra Itália mineiro, cujas cores foram inspiradas na Azurra, famosa camisa da seleção italiana.

Uma coisa curiosa é que eu pensava que o sobrenome Martino fosse raro, mas pesquisando na internet descobri tratar-se de um sobrenome que tem em toda a bota, tão comum por lá quanto Silva no Brasil.

Dessa Italianada inicial, veio uma italianada nova, gerações que se misturaram e se adaptaram dando sua contribuição no jeito de ser Alvinopolense e até se espalhando pelo Brasil e pelo planeta afora, uma turma também orgulhosa de ostentar o sanguinho com cheiro de vinho da bota.

É isso aí, pessoal! No próximo texto vou falar sobre os Souza, Carvalho e Abreu Lima, ancestrais que figuram entre os  pioneiros na colonização de nossa região.

sábado, 7 de março de 2009

ONDE TODAS AS SEMANAS SÃO SANTAS


Morar fora de Alvinópolis é como viver no exílio.

Sinto como se vivesse num país estranho, onde os costumes, os volumes, as amizades, os sotaques são estranhos, por mais semelhantes que pareçam.
 

Não conhecemos as famílias de cicrano, as manias de beltrano, nada sabemos.
 

Muitas vezes nos sentamos nos ônibus ao lado de um estuprador, de um pedófilo, de um extraterrestre, de um muçulmano.
 

Vivemos em casas onde muitos já viveram, dormimos em quartos em que muitos já morreram, se amaram, sei lá mais o que fizeram.


Como dói a saudade da aldeia.
 

Muitas vezes somos exilados de nós mesmos, perdemos a utilidade, queremos voar mais alto, como num vôo de Ícaro contemporâneo, tendo as asas coladas com chicletes.
 

Quem dera pudéssemos pousar novamente, suavemente em grande estilo, mas o campo de aviação encontra-se cheio de lixo, não se presta ao pouso de anjos, mas de urubus e outras aves de mau agouro.
 

Pelo menos há alívio quando temos indultos para voltar ao paraíso.


O mesmo relevo, o mesmo clima, as mesmas ruas. 
 

Algumas mudanças ocorreram, sumiram alguns campinhos de futebol, o asilo subiu pro monte, o rio antigo tá menos caudaloso, mas em compensação temos um rio de shampoo desaguando no país inteiro, os bambas do Gaspar ficaram bambos com a quase morte do Alvinopolense e o folião que abandonou a marinha, tava até pensando em voltar pro mar...mas eis que o carnaval retomou seu vigor e o que estava bambo se firmou e o que era “ Adeus” virou "até breve".

 

Ê Alvinópolis véia de guerra. 
 

A vida da gente é um filme, mas não somos nós que escrevemos os roteiros.


Não sabemos onde estaremos amanhã, mas sabemos que o cordão umbilical tá enterrado aí, feito de material mais resistente que o mais resistente dos aços.
 

E agora, ficamos todos nós exilados esperando a semana santa, pra voltar pra terra onde são santas todas as semanas.