
Não me lembro exatamente o ano, mas lembro-me de ter sido um acontecimento ímpar em Alvinópolis.
Me perdoem o lapso de memória, mas me fogem alguns detalhes.
Sei que corria na cidade o boato de que o grande criminalista Obregon Gonçalves iria a Alvinópolis para um júri, para defender uma pessoa.
Eu vivia muito o ambiente forense, afinal, minha mãe trabalhava no fórum.
Adorava filmes de júris, gostava de ver os grandes oradores em ação e estava doido para ver o grande Obregon em ação.
Diziam que ele tinha um problema de nascença, que não tinha as mãos, mas que Deus havia lhe compensando essa deficiência dotando-lhe de inteligência acima da média.
Pois bem! O júri foi marcado e faltava saber quem seria o advogado que iria enfrentar aquela fera.
Quando foi anunciado o advogado que iria enfrentá-lo no tribunal, confesso que fiquei com pena do sujeito: seria o Gustavo Correa Neto, até pouco tempo, fotógrafo da cidade, um jovem reconhecidamente inteligente, mas recém-formado e sem experiência de júri.
Aliás, importante dizer que o Gustavo era para mim uma referência na rua de cima, tinha seu laboratório de fotos perto da casa de sua mãe e teve uma coisa boba que me marcou naquela época. Eu estava estudando caligrafia na época, aprendendo a escrever em letra cursiva. Fiquei muito surpreendido quando certa vez fui ao laboratório do Gustavo e vi várias coisas que ele havia escrito, só que em letra de forma, tudo com muito capricho. A partir daí, também fiquei rebelde e resolvi escrever em letra de forma. Na escola, escrevia em letra cursiva pra não levar xingo dos professores, mas em minhas coisas pessoais, passei a escrever em caixa alta e assim faço até hoje.
Mas voltando ao grande júri, chegou o grande dia.
O fórum estava em polvorosa, todo mundo muito bem vestido, um clima pesado no ar e para muitos, a certeza de que o Obregon iria trucidar o Gustavo.
Eu confesso que também pensava assim, não que o Gustavo não fosse inteligente, mas era Davi contra Golias e era proibido usar bodoque no tribunal.
Quando chegou a hora do tribunal, tudo muito formal, as pessoas em suas indumentárias e pude enfim ver a figura do Obregon chegando. Realmente, ele tinha aquele problema que por incrível que pareça, realçava a sua personalidade.
Todos a postos, o escrivão, o juiz com sua cara de Deus, todos muito sérios e solenes.
De repente o juiz bateu seu martelo e abriu o tribunal.
Daí, pude enfim ver o grande jurista falando. Obregon se expressava com tal teatralidade que hipnotizava a todos. Hora usava de ironia, noutra de sentimentalismo e ia envolvendo os jurados, que em todo momento assentiam com a cabeça.
Eu também estava paralisado.
Quando terminou, o povo só não aplaudiu, porque não podia quebrar o protocolo.
Mas eis que faltava o Davi, ou seja, o Gustavo falar.
Ele começou meio nervoso, algumas palavras tropeçavam, mas eis que começou a se entusiasmar, foi tomado pela verdade, foi ganhando confiança, deixou fluir a inteligência que tinha de sobra e conseguiu o que todos duvidavam: foi mais convincente que o magnífico Obregon Gonçalves.
Naquele momento deu um baita orgulho de ser Alvinopolense.
Obregon tentou se justificar dizendo que aquela era uma causa impossível. Mas como, se aquele era o homem das causas impossíveis?
Fiquei doido pra dar um abraço no Gustavo, mas deixei pra lá.
Ele era um gigante e eu apenas um meninote.
Depois disso, o destino ainda me levou a ter o meu primeiro emprego, aos 14 anos, no escritório de advocacia que pertencia a ele, Repolês, Tatim e Lalado.
Gustavo ainda foi pioneiro na rua de cima, sendoi a primeira pessoa em Alvinópolis a ter uma TV a cores. Lembro-me da turma subindo com um rolo de fios pelo pasto a fora, pra instalar a antena e pegar a revolucionária TV colorida.


